O que significa ser classe trabalhadora — e por que isso define a vida de quem vive do salário

Mais de 103 milhões de pessoas estão ocupadas no Brasil, segundo o IBGE; depender do trabalho para sobreviver é a condição comum que une setor público e privado

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Ser classe trabalhadora não é uma identidade abstrata. É uma condição concreta: viver do próprio trabalho para garantir a sobrevivência.

No Brasil, essa é a realidade da maioria da população. Em 2024, o país atingiu o recorde de 103,3 milhões de pessoas ocupadas, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Esse contingente inclui trabalhadores do setor privado, autônomos e também servidoras e servidores públicos, todos dependentes do salário como principal fonte de renda.

Uma definição simples com impacto estrutural

Na prática, integrar a classe trabalhadora significa depender da venda da própria força de trabalho.

Isso inclui desde professores da rede pública até trabalhadores da indústria, do comércio ou dos serviços.

Apesar das diferenças entre carreiras e vínculos, a base é a mesma: a renda mensal é o que sustenta a vida.

Segundo o IBGE, a força de trabalho brasileira, que reúne pessoas ocupadas e em busca de emprego, ultrapassa 110 milhões de pessoas, o que reforça o peso dessa condição na estrutura social do país.

Trabalho é sobrevivência

Os números ajudam a entender o tamanho dessa realidade, mas não explicam tudo.

Isso porque o trabalho, no Brasil, não é apenas uma atividade econômica. É o que define o acesso à moradia, à alimentação, ao transporte e até à saúde.

Mesmo com a queda do desemprego para 6,6% em 2024, o menor nível da série histórica recente, milhões de pessoas ainda enfrentam instabilidade, informalidade e baixa renda.

Hoje, cerca de 4 em cada 10 trabalhadores estão na informalidade, segundo dados do IBGE, o que significa ausência de direitos básicos como previdência e proteção trabalhista.

O que aproxima o setor público e o privado

Embora o serviço público tenha características próprias, como estabilidade e ingresso por concurso, a condição de classe permanece.

Servidoras e servidores também:

  • dependem do salário
  • enfrentam limites orçamentários
  • disputam valorização profissional
  • e são impactados por políticas econômicas

No caso do funcionalismo municipal, a negociação não ocorre com empresas, mas diretamente com o Estado, que, ao mesmo tempo, emprega e define as regras do jogo, tornando a disputa ainda mais política.

Quando o problema é coletivo

Salário baixo, sobrecarga, falta de estrutura e desvalorização profissional costumam aparecer como problemas individuais.

Mas, quando analisados em escala, revelam um padrão social.

Em 2024, cerca de 19 milhões de pessoas estavam subutilizadas no mercado de trabalho, ou seja, sem emprego ou trabalhando menos do que poderiam, segundo o IBGE.

Por que isso importa?

Reconhecer-se como parte da classe trabalhadora muda o ponto de partida.

Se os problemas são compartilhados por milhões, eles não são resultado de falhas individuais, mas de uma organização social que distribui de forma desigual a renda e as condições de vida.

Segundo Graça Costa, dirigente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Quixadá, Ibaretama, Banabuiú, Choró e Ibicuitinga (SINDSEP), compreender que as dificuldades enfrentadas no trabalho não são individuais, mas coletivas, é o que permite à classe trabalhadora sair do isolamento e construir respostas organizadas.

“Quando a gente entende que o problema não é só seu, muda tudo. A gente deixa de se culpar e passa a se reconhecer como parte de uma classe que enfrenta as mesmas dificuldades. E é isso que abre caminho para a organização e para as conquistas coletivas”, afirma.

O papel da organização

É dessa leitura que nasce a organização coletiva. No serviço público, sindicatos cumprem esse papel ao negociar salários, defender planos de carreira e organizar a mobilização das categorias.

Estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) indicam que a diminuição da taxa de sindicalização está diretamente ligada ao aumento da concentração de renda no topo (10% mais ricos) em nações industrializadas desde 1980.

Ou seja, onde há menos organização coletiva, há maior concentração de riqueza.

Uma maioria com potencial de transformação

Se mais de 100 milhões de pessoas vivem do trabalho no Brasil, isso significa que a classe trabalhadora não é minoria, mas, a maioria.

E é justamente essa maioria que sustenta o funcionamento do país, seja na produção econômica, seja na oferta de serviços públicos essenciais como educação, saúde e assistência social.

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