Dados revelam mais de 470 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais no Brasil. No Ceará, foram registrados 12.202 afastamentos, sendo 4.095 por ansiedade e 3.024 por depressão

O Brasil registrou, em 2024, o maior número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais dos últimos dez anos. Foram mais de 470 mil trabalhadores afastados em razão de problemas como ansiedade e depressão, segundo dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
No Ceará, foram registrados 12.202 afastamentos por transtornos mentais, dos quais 4.095 tiveram como causa a ansiedade e 3.024 a depressão. Os números chamam atenção para o avanço do sofrimento psíquico no ambiente de trabalho e reforçam a necessidade de políticas permanentes de prevenção, acolhimento e cuidado com a saúde dos trabalhadores.
Para a psicóloga Gabriela Benigno, os dados também precisam ser analisados a partir das desigualdades sociais e das condições de vida e trabalho enfrentadas pelas mulheres.
“O maior número de mulheres entre os afastamentos não significa maior fragilidade emocional. É preciso olhar para a sobrecarga social, familiar e profissional que recai historicamente sobre elas”, afirma.
Segundo a psicóloga, a divisão desigual das responsabilidades domésticas e de cuidado faz com que muitas mulheres acumulem diferentes jornadas.
“Muitas mulheres trabalham fora e, ao chegar em casa, continuam trabalhando. Cuidam dos filhos, dos pais, da casa e de outras pessoas, muitas vezes sem tempo suficiente para cuidar de si mesmas”, destaca.
Gabriela Benigno ressalta que a exposição prolongada à sobrecarga e ao estresse, sem períodos adequados de recuperação, pode aumentar a vulnerabilidade ao adoecimento físico e psíquico.

Serviço público está entre os setores mais afetados
A situação também preocupa especialmente o funcionalismo público. Dados do SmartLab, plataforma que reúne e cruza informações de diferentes bases oficiais, apontam a administração pública como o segmento econômico que mais registra pedidos de afastamento ao INSS por transtornos mentais relacionados ao trabalho.
Entre 2012 e 2024, mais de 19 mil servidores públicos tiveram acesso ao benefício por incapacidade temporária decorrente de acidente ou doença relacionada ao trabalho, o chamado B91. O número corresponde a 14,9% do total de benefícios concedidos no período.
Quando considerados os afastamentos por transtornos mentais que não necessariamente têm relação direta reconhecida com a atividade profissional, o serviço público também aparece em primeiro lugar. No mesmo período, cerca de 206 mil servidores tiveram acesso ao benefício B31, conhecido como auxílio por incapacidade temporária.
Para Gabriela Benigno, a estabilidade no serviço público não elimina fatores que podem contribuir para o sofrimento psíquico dos trabalhadores.
“Estabilidade não significa ausência de pressão, sobrecarga, assédio ou falta de reconhecimento. O adoecimento também está relacionado às condições e à organização do trabalho”, ressalta.
A psicóloga chama atenção para áreas como saúde, educação e segurança pública, que podem apresentar riscos específicos devido ao contato constante com sofrimento, violência, jornadas extensas, cobranças e falta de recursos.
“Mais do que perguntar qual profissão é mais estressante, precisamos olhar para as condições em que o trabalhador exerce suas atividades”, afirma.
Para a presidenta do Sindsep, Izaltina Gonzaga, os números reforçam a urgência de ampliar o debate sobre as condições de trabalho e a saúde mental dos servidores públicos, especialmente diante de fatores como sobrecarga, pressão, falta de estrutura, cobrança excessiva e precarização das relações de trabalho.
“Falar sobre saúde mental dos servidores públicos é falar também sobre condições dignas de trabalho. Não podemos tratar o adoecimento como um problema individual quando existem fatores no próprio ambiente de trabalho que podem contribuir para o sofrimento. É fundamental que o poder público desenvolva políticas permanentes de prevenção, acolhimento e acompanhamento, garantindo que o servidor tenha acesso ao cuidado antes que o adoecimento se agrave”, destaca a presidenta.
Prevenção e cuidado precisam ser permanentes
Embora os dados oficiais permitam dimensionar parte dos afastamentos, as estatísticas não revelam toda a extensão do sofrimento psíquico entre os servidores públicos. Estudos realizados em órgãos e municípios brasileiros apontam que os transtornos mentais e comportamentais podem representar uma parcela significativa das licenças médicas concedidas ao funcionalismo.
Estresse relacionado ao trabalho, excesso de demandas, cobrança por resultados, rigidez organizacional, falta de reconhecimento e risco de burnout estão entre os fatores que podem impactar a saúde dos trabalhadores, especialmente em áreas que lidam diariamente com situações de grande pressão, como saúde, educação e segurança.
Para a psicóloga, a prevenção precisa ir além da responsabilização individual do trabalhador.
“Prevenir o adoecimento exige reduzir sobrecargas, combater o assédio e a violência e garantir condições dignas de trabalho”, conclui.
O cenário reforça a importância de discutir a saúde mental não apenas quando ocorre o afastamento, mas como parte das políticas de valorização do serviço público. Para o Sindsep, cuidar da saúde dos servidores também significa cuidar da qualidade dos serviços prestados à população.








