Primeira greve geral do Brasil começou com mulheres e expôs a força da organização coletiva

Paralisação iniciada por operárias em 1917 se espalhou pelo país e marcou o início de um novo ciclo de lutas da classe trabalhadora

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Por Rafael Mesquita

A primeira greve geral do Brasil começou com mulheres.

Arquivo Edgar Leuenroth/Unicamp

Em junho de 1917, operárias do Cotonifício Crespi, na Mooca, em São Paulo, cruzaram os braços diante de jornadas exaustivas, baixos salários e condições de trabalho marcadas por abusos.

O que começou com cerca de 400 trabalhadoras rapidamente se transformou em um movimento de grandes proporções. Em poucas semanas, a paralisação se espalhou por diferentes categorias e atingiu milhares de trabalhadores, tornando-se a primeira greve geral da história do país, segundo registros históricos analisados por pesquisadores e veículos como a BBC Brasil.

Uma revolta que virou movimento

Naquele contexto, trabalhar significava enfrentar jornadas que podiam chegar a até 16 horas por dia, sem garantias básicas e com forte controle das chefias.

Para as mulheres, a realidade era ainda mais dura. Além do trabalho nas fábricas, recaía sobre elas o trabalho doméstico, ampliando a sobrecarga e aprofundando a desigualdade.

A greve de 1917 não foi apenas uma reação pontual. Foi uma resposta coletiva a uma vida marcada pela exploração.

Greve como instrumento de pressão

A paralisação rapidamente ultrapassou os muros da fábrica.

Outros trabalhadores aderiram ao movimento, muitas vezes por solidariedade, ampliando a mobilização para diferentes setores da economia. Em pouco tempo, a greve tomou as ruas de São Paulo e se espalhou para cidades como Rio de Janeiro e Porto Alegre.

Mais de um século depois, a greve segue sendo um dos principais instrumentos de luta da classe trabalhadora.

Levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que o Brasil registrou 1.132 greves em 2023, com participação expressiva do funcionalismo público, responsável por mais da metade das paralisações no período.

Em 2024, foram 880 greves, e quase metade delas ocorreu no setor público e em empresas estatais, evidenciando o peso das mobilizações entre servidoras e servidores.

Os dados indicam que, mesmo com mudanças no mundo do trabalho, a paralisação coletiva continua sendo acionada quando direitos são ameaçados ou quando a negociação não avança, exatamente como ocorreu em 1917.

A força da organização coletiva

Para Sheila Gonçalves, diretora da Secretaria de Formação do Sindicato dos/as Servidores/as Públicos Municipais de Quixadá, Ibaretama, Banabuiú, Choró e Ibicuitinga (SINDSEP), a greve de 1917 mostra que as grandes transformações no mundo do trabalho começam a partir da organização coletiva, muitas vezes impulsionada por quem está nas condições mais precarizadas.

Segundo ela, o protagonismo das mulheres naquele momento histórico revela como a luta surge da experiência concreta de exploração e desigualdade.

“A história mostra que quem mais sofre com a exploração também é quem mais se levanta para mudar a realidade. Foram mulheres que puxaram a primeira greve geral do Brasil, e isso não é por acaso. É porque estavam na linha de frente da desigualdade e decidiram não aceitar mais”, afirma.

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