A greve continua sendo um dos principais instrumentos de pressão da classe trabalhadora no Brasil. Em 2025, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos registrou 1.006 greves no país, alta de 14% em relação ao ano anterior, quando haviam sido contabilizadas 880 paralisações.

O dado desmonta a ideia de que a luta coletiva perdeu força. Pelo contrário. Em um cenário de reajustes insuficientes, sobrecarga, precarização, atraso de direitos, assédio, falta de estrutura e ameaças ao serviço público, trabalhadoras e trabalhadores seguem recorrendo à organização coletiva para fazer suas demandas serem ouvidas.
O peso do funcionalismo municipal
Segundo o Dieese, grande parte das greves do funcionalismo público em 2025 ocorreram no nível administrativo municipal, e quase metade foi deflagrada por profissionais da educação.
“É nas cidades que grande parte dos conflitos aparece de forma mais direta: salários defasados, planos de carreira travados, ausência de concursos, falta de estrutura nas escolas, unidades de saúde sobrecarregadas, contratos temporários e atrasos no cumprimento de direitos, criticou a presidenta do SINDSEP, Izaltina Gonzaga.
“Quando a negociação não avança, a greve aparece como resposta coletiva”, declarou Izaltina. Para ela,
Pautas vão além do salário
A principal reivindicação das greves do funcionalismo público em 2025 foi reajuste salarial, presente em 54,4% das mobilizações. Mas a pauta foi mais ampla.
Também aparecem protestos contra governos, melhoria dos serviços públicos, condições de trabalho, planos de cargos e salários, piso salarial, contratação e alimentação.
Ou seja, as greves do funcionalismo tratam não só de remuneração individual, mas também expressam conflitos sobre a qualidade do serviço prestado à população.
“Quando professores paralisam por estrutura escolar, quando servidores da saúde cobram contratação, quando trabalhadores da assistência reivindicam condições dignas, a pauta ultrapassa a folha de pagamento. Ela toca diretamente o direito da população a políticas públicas de qualidade”, declarou Izaltina.
Greve não é ausência de diálogo
Um erro comum é tratar greve como falta de diálogo. Muitas paralisações acontecem justamente quando o diálogo foi recusado, adiado ou esvaziado.
A greve é um instrumento de pressão quando ofícios não são respondidos, mesas de negociação não avançam, propostas não são apresentadas ou compromissos assumidos não são cumpridos.
No serviço público, isso ganha ainda mais importância porque o empregador é o próprio Estado. A categoria não negocia com uma empresa privada. Negocia com governos, orçamentos, câmaras municipais, secretarias e prioridades políticas.
Por isso, a mobilização precisa combinar assembleia, negociação, pressão institucional, comunicação pública e presença nas ruas.
Mobilização e força de trabalhadores organizados
Nem toda greve produz vitória imediata. Mas os dados mostram que a organização coletiva segue influenciando a disputa salarial e trabalhista.
Em 2025, 77,7% das negociações coletivas analisadas pelo Dieese conquistaram reajustes acima da inflação, enquanto 14% ficaram iguais à inflação.
Esse dado não pode ser lido de forma automática para todos os setores, mas reforça um ponto histórico: onde há organização, há maior capacidade de transformar reivindicação em negociação.
“Sem sindicato, a servidora ou o servidor enfrenta sozinho a máquina pública. Com sindicato, a pauta individual vira pauta coletiva; a reclamação vira documento; o problema vira negociação; e a negociação pode virar conquista”, destacou Izaltina.
O crescimento das greves deve ser interpretado como sintoma de conflitos sem solução. “Quando há greve, há algo que precisa ser ouvido. E, no caso dos servidores municipais, as pautas geralmente revelam a mesma estrutura: salários baixos, falta de concurso, carreira desvalorizada, sobrecarga e ausência de condições adequadas para atender a população”, concluiu Izaltina.








